Iza, são 10 horas da manhã e o calor, aqui no centro da cidade, já está insuportável. Vou andando até a Nilo Peçanha. Te ligo quando sair da consulta. Beijos

_ Boa sorte! Me liga quando sair.
E lá fui eu encontrar o psiquiatra que _ além das drogas_ trabalha com o divino.
Pelo que entendi, ele dá passes, lê o Evangelho Segundo o Espiritismo, faz palestras. Eu não acredito em Deus. Acho espiritismo o ó. Mesmo assim, fui marcar ponto em mais uma furada.

Na portaria do prédio, esperando o elevador, eu e mais cinco. Conto o número de pessoas que entra no elevador porque sou claustrofóbica. Se eu perceber que o meio de transporte mais seguro da face da terra vai ficar muito cheio, eu saio. Como só havia um elevador funcionando e ele demorou para chegar, tive tempo de analisar superficialmente as figuras que estavam ao meu redor e que subiriam comigo.

Um entregador de farmácia, uniformizado; um advogado que eu não sei se era ou não advogado; um cabeludo com pinta de músico; uma mulher que me lembrou Uma Thurman e um cara com um perfume forte, uma barriga ofensiva, uma calça jeans e uma camisa do Botafogo. Tinha o cabelo acaju e parecia muito contente.
O elevador chegou. Entrei por último, porque gosto de ficar ao lado da porta. Apertei o 19.

O elevador era moderno. Tinha aquela TV que foi colocada ali para que os passageiros possam fixar o olhar na tela e não sejam obrigados a interagir.
O elevador começou a subir e Barriga não se conteve. Olhou para o entregador da farmácia e disse: _ Rapaz, para que time você torce? O rapaz demorou alguns segundos, respirou e respondeu de forma seca:

_ Não torço pra nenhum time. Não gosto de futebol.
Botafoguense insistiu:_ Brasileiro, trabalhador e não torce para nenhum time? Já impaciente, o entregador reage: _ Sou brasileiro e trabalhador. Isso não me obriga a gostar nem de futebol, nem de brasileiros.

Uma Thurman, que até então estava calada, não se conteve e deu uma gargalhada inesperada. O cara do terno da Vila Romana, o advogado, continuava calado e lia atentamente o horóscopo do dia. Não resisti e perguntei: _ Qual é o seu signo? _ Touro.

De repente, a luz do elevador se apaga e ele para. Em silêncio, esperamos alguns segundos. Eu, no escuro, abri minha bolsa, peguei um comprimido de Frontal, coloquei debaixo da língua e comecei a respirar fundo na tentativa de conter o meu pânico.

Uma Thurman, como se estivesse na calçada, resolve acender um cigarro e ninguém fala nada. O Barriga calou a boca – por pouco tempo – obviamente.
Smartphones se transformaram em lanternas.

O entregador da farmácia, super tranquilo, diz: _ Vou acabar perdendo a hora do meu almoço! Eu grito Porra, estamos presos no elevador e você pensando na sua hora do almoço? Não me diga que um prédio desse porte não tenha gerador. E, para o meu desespero, ele responde: Não tem. Já fiquei preso aqui, outras vezes.

Pensei: Se esse taurino fosse ariano, já teria metido o pé na porta!

— Preciso sair daqui, agora! Pelo amor de Deus, arrombem isso!exclamei, apavorada. Alguém pode fazer a gentileza de me dar um tapa na cara!
Uma Thurman diz:

— Gata, relaxe. Alguém vai nos tirar aqui de dentro. Quer um trago?
— Não. Quero engolir um cigarro inteiro.
O botafoguense se pronuncia:
— Vocês não podem fumar aqui dentro! Isso é um absurdo.
Uma Thurman responde:
— Transporte-se para 1960, por favor.
O músico, que até então estava mudo, de repente, abriu as portas do elevador. Com as pernas, manteve as portas abertas para que todos pudessem saltar.
Estávamos entre um andar e outro. O espaço era pequeno, mas no desespero, um metro é o suficiente. Uma Thurman ficou tensa, disse que se a luz voltasse, nossos corpos seriam partidos ao meio. Eu, desesperada, fui a primeira a pular. Estávamos no sétimo andar. Atrás de mim, veio o entregador de farmácia.

O advogado, o botafoguense e Uma Thurman hesitaram. Uma teve que empurrar o Barriga. Um metro, pra ele, era pouco espaço. O advogado também ajudou. Quem tem barriga sempre atrapalha a passagem.

O cabeludo disse:
— Vamos lá! Rápido. Sem pensar muito, por favor! Bom, todos saíram e o elevador não despencou.

O músico chamava-se Peterson e já havia trabalhado na manutenção do prédio.
Descemos pelas escadas, usando os telefones como lanterna.
Troca de mensagem pelo WhatsApp
_ Iza, são 11h e eu já estou liberada. Desisti da consulta. Vou tomar uma cachaça na padaria com alguns amigos que fiz no elevador. Quando você estiver liberada pro almoço, me avise.
_ Como é que é?
_ É.

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